DESOCUPA,JOÃO!

(com aúdio AQUI)

 

Desocupa,João.
Sai de cima.
Vai embora. Se manca. Se manda.
Vade retro,João
A gente finge acreditar que a Marinha mandou te derrubar,
pra não sujar a praia nem perturbar Yemanjá.
Sai daqui. Vai pra lá. Fica lá.
Pega a morena pra cuidar do coração,
e volta mais não,João.
Desocupa. Desencana. (Entra em cana,João).

Isso né pra ti não!
Não foi pra Bahia,João,que você nasceu.
Esse reino não é seu!
Nossas praças não são suas
–nem a Vila Brandão,João.
Nem qualquer que seja o terreno público que você loteou,meu amor.

Sai de fininho,João.
Vai pra Bilbao,Barcelona…vai pra Atlântida,João!
Afunda. Vira mito. É melhor,João. Lá tem metrô.
Vai com tudo,João.
Se joga,João —ali do muro do Solar do Unhão.
Vai lá,bate palmas pro sol e parta.
Se mata!
Sai daqui.
Ninguém te quer cá,nem Yemanjá.
Se conforma que esse reino é de Oxalá,
e volta pro mar,coisa errada –que oferenda de ti não há!

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AD INFINITUM

 

faço tudo ao contrário.
nasci pelo avesso
–ou assim desejo.
cresci com reservas. regras. rígida.
sabia de coisas que agora esqueço.

e quero,agora,no alto dos 30 e ainda poucos
gozar de gangorras
gozar de banho de chuva
gozar de leveza
gozar de falar gugudádá
ou do silêncio
gozar

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LAMENTO A CESÁRIA

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da nota mais triste

do canto mais escuro

invadindo o ar na noite fria.

Da nota mais triste ouvi sete lamentos puros

Sete segredos divinos

Sete palavras azuis

Na pausa da vírgula e do canto

lá onde luzes brancas refletem alvas como o alvorecer,

áureas como a aurora

calmas como um crepúsculo às seis horas

Tempo de Ave Maria cheias de Graça

Senhoras dos Morros

Nêgras sôfregas nas ladeiras

Cantando os cantos das lavadeiras

Belas como as sereias mitológicas

Oxums arquetípicas…

Sentastes então como rainha

majestade negra

Cada trago era em mim

êxtase e lembranças

…essas imagens surreais nos meus sonhos despertos.

alucinações

alienações

desejos

Essas certezas que se perdem no caminho

Essas surpresas que se colhem nas estradas

Daria um conto de réis a quem me disesse sem palavras

que Deus não tá morto

que existe a eternidade

e que a divindade está em tudo

Cantaria com três vozes em uníssono:

Salve homem,céu e terra

santíssima Trindade

Sagrada pirâmide do Egito:

diz-me com cuidado a resposta ao enigma

dai-me com calma o segredo que já sei,mas tenho esquecido.

Sopra aqui na minha nuca

um susussurro,um vento quente

a acalmar dúvidas

e clarear caminhos

(que só existe ao caminhar).

Te dou em troca passos firmes

mas leves

Leve,leve como a promessa de luz no eclipse

Leve,leve como uma manhã de frio e sol.

Põe aqui na palma das minhas mãos negras O Segredo

e revela-o como quem abre as cortinas em manhã de calor e sol

Oh,que o sol,o calor e a manhã aqueçam a alma

como fogueira de Airá

E como fogueira e sol,manhã e calor

Serei inteira –

como a lua cheia que se escondeu no eclipse.

Amém.

 

(a Cesária,algum dia de novembro,2004 —e porque ela era rainha,mesmo contra a minha ética a foto se fez necessária…)

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that BEING said

When words fail,screams prevail.
As such,that Being spoke in tongues
and tones
and such
in the hour of shattered hues and colorblinds
that Being,colorful,shouted stories once told in and around fire.
That Being said of crackles of and among stars
of female dragons swallowing flames,spitting womb bloody water
of certitudes shaken,breakin’.
It spoke of a time of yes and a time of maybe,and a time when Time was not.
It then resumed,and silenced.

In and around fire,stories have been told and burnt.
In hours of shattered beings,colorful or colorless,we’ve chanted —in and about fire
we’ve held hands,cursed and plagued
we’ve calmed down —all in spite of fire
we’ve searched words,spoke nonsense
reached further,found new hearts,new ears,new tongues,new tones
and still played the same song…so did Fire.

One day Fire rose and played those same tricks
already played in other crossroads:
it painted one side red,and the other darkness
and went about his way,tricking and treating.
Tricking and treating Fire goes on,and on,and on:one side,red.
The other,darkness.

 

 

(originally published at http://www.madmenscalling.com/)

 

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FOR TROY DAVIS

one of those nights
one of those
haunted sights

one of those.

senseless plight.
one of those
spite. full. nights.

 

(originally posted at http://www.madmenscalling.com/)

 

 

 

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BRUNA,PINÓQUIO,POETAS E AFINS

Bruna é aquele ser ainda em formação,ou assim a pensamos. 5 anos,“apenas”…mas vocês bem sabem que esses seres ainda em formação já sentem tanto ou mais do que a gente pseudo-formada. Eles só não dizem como dizemos,e por isso acabam dizendo melhor. Crianças são originalmente poetas,mas depois aprendem regras de concordância.

Bruna,quando sente dor na alma,acha que vem das pernas. Ou da barriga. A dor de ver Pinóquio e Gepeto se afastarem é sentida com lágrimas que ela não sabe de onde vêm. Aí ela acha que é a perna que dói,e chama o pai. O pai foi quem também a ouviu dizer,em tom shakespereano e lacrimoso,que “essa é a pior vida que existe”. A pior vida que existe a que essa coisinha de 5 anos se referia era a espera de algumas horas por uma prima que nunca chegou para brincar com ela.  A pior vida que existe é a da espera do que não se concretizou? A da solidão? A das falsas promessas? A da impossibilidade da brincadeira? Ou é apenas a de não saber dizer que está com sono? Bruna não sabe,e eu tampouco. E por não saber,poetiza o que sente. Dramatiza as sensações.

Poetas são crianças que apenas cresceram. Ou não.

 

 

 

 

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CÉU DE PRIMAVERA E OUTRAS ASTRONOMIAS…

photo © Patrícia Magalhães ,2011

Eu sou da Bahia. Aquele lugar onde supostamente o tempo passa mais devagar,as pessoas falam cantando,as cores têm mais contraste. Onde se é católico-apostólico-baiano-protestante-do-axé-do-dendê-ateu-espírita-etc,tudo junto,sem que haja absolutamente nenhuma contradição. Onde o vizinho entra sem bater,o amigo já está deitado no sofá,e o caruru que era de sete meninos alimenta uma creche inteira. A terra do mais belo dos belos,Ilê Ayê. Da moqueca,dos quitutes todos do tabuleiro,do bolinho de estudante que também é punhetinha,da Casa Branca cheia de pretos. Do pôr do sol do Porto que é o retrato da beleza,e que merece palmas. Terra dum metrô que virou lenda e que em breve é capaz de virar arquétipo descrito por Pierre Verger. Terra de muita coisa errada,mas muita gente boa. Pois bem,eu sou dessa terra,e todo verão é pra lá que volto,andorinha que sou.

Desde 2005,entretanto,vivo nos Estados Unidos da América (e não,eles nem são tão unidos assim). Passei grande parte dos quatro primeiros meses em Nova Iorque,onde o tempo passa muito rápido. Onde os táxis não param exatamente quando e onde você precisa,e o motorista russo acha que sou da Etiópia e quando descobre que sou brasileira pergunta,num português perfeito,o que significa “cada macaco no seu galho”. Nova Iorque,onde as pessoas podem ser extremamente frias,mas ser frio é cool. Onde há parques que são praias,e museus que são igrejas —reza a lenda que há 365 museus em Nova Iorque,um para cada…mentira,essa lenda é de origem baiana mesmo. Nova Iorque tem tudo do bom e do melhor do mundo,parece;e deve ter o de pior também. Tem o mundo todo em si. É atemporal,quiçá anacrônica. Fala todas as línguas e não fica em silêncio nunca.

Mas minha vida nos EUA é na verdade na Pensilvânia. Não,aqui não há vampiros,você está confundindo com a Transilvânia. Aqui o tempo às vezes parece que não existe,às vezes sufoca,às vezes liberta. Aqui moram meus peixes,no quintal. Aqui tenho um jardim e às vezes uma horta,e meus vizinhos gays se chamam de roomates e cuidam da minha horta quando viajo;e minha vizinha grega idosa e que cai no quintal me acha so pretty. Aqui há sempre barulho de ambulância por causa do hospital na esquina de casa —foi lá que acompanhei minha vizinha grega uma tarde inteira,depois de uma queda;ela nunca mais foi a mesma desde então,acho que está a caminho do seu próprio outono,que aqui é fall. E por falar em estações,aqui a primavera é realmente de tirar o fôlego. A primavera na Pensilvânia foi provavelmente uma das mais belas experiências que tive quando me mudei para a “América”. Sendo da Bahia,nunca tinha realmente experimentado as estações,e minha transição para estas terras do norte foi justamente na transição entre o inverno e a primavera —não vou nem entrar nas possíveis interpretações lacanianas disso tudo,me deixem! Num fim de semana,o quintal era pura neve e morte:galhos secos,folha nenhuma. No outro,neve já quase toda derretida,a vida começando a se anunciar,vida verdinha e pequena que vinha devagarzinho por debaixo das catacumbas das folhas do outono molhadas de inverno,que agora serviam apenas como adubo para a vida que estava por vir. É sempre assim:uma coisa sempre morre para outra crescer.

Viva a primavera. Que morra o que já passou do tempo,e que venha o que há tanto tempo tem raiz mas fica com receio dos frutos por puro medo do outono.

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