By Patrícia Magalhães,on January 20th,2012 
(com aúdio AQUI) Desocupa,João. Sai de cima. Vai embora. Se manca. Se manda. Vade retro,João A gente finge acreditar que a Marinha mandou te derrubar, pra não sujar a praia nem perturbar Yemanjá. Sai daqui. Vai pra lá. Fica lá. Pega a morena pra cuidar do coração, e volta mais não,João. Desocupa. Desencana. (Entra em cana,João). Isso né pra ti não! Não foi pra Bahia,João,que você nasceu. Esse reino não é seu! Nossas praças não são suas –nem a Vila Brandão,João. Nem qualquer que seja o terreno público que você loteou,meu amor. Sai de fininho,João. Vai pra Bilbao,Barcelona…vai pra Atlântida,João! Afunda. Vira mito. É melhor,João. Lá tem metrô. Vai com tudo,João. Se joga,João —ali do muro do Solar do Unhão. Vai lá,bate palmas pro sol e parta. Se mata! Sai daqui. Ninguém te quer cá,nem Yemanjá. Se conforma que esse reino é de Oxalá, e volta pro mar,coisa errada –que oferenda de ti não há! By Patrícia Magalhães,on January 14th,2012 
faço tudo ao contrário. nasci pelo avesso –ou assim desejo. cresci com reservas. regras. rígida. sabia de coisas que agora esqueço. e quero,agora,no alto dos 30 e ainda poucos gozar de gangorras gozar de banho de chuva gozar de leveza gozar de falar gugudádá ou do silêncio gozar By Patrícia Magalhães,on December 18th,2011 
Da nota mais triste do canto mais escuro invadindo o ar na noite fria. Da nota mais triste ouvi sete lamentos puros Sete segredos divinos Sete palavras azuis Na pausa da vírgula e do canto lá onde luzes brancas refletem alvas como o alvorecer, áureas como a aurora calmas como um crepúsculo às seis horas Tempo de Ave Maria cheias de Graça Senhoras dos Morros Nêgras sôfregas nas ladeiras Cantando os cantos das lavadeiras Belas como as sereias mitológicas Oxums arquetípicas… Sentastes então como rainha majestade negra Cada trago era em mim êxtase e lembranças …essas imagens surreais nos meus sonhos despertos. alucinações alienações desejos Essas certezas que se perdem no caminho Essas surpresas que se colhem nas estradas Daria um conto de réis a quem me disesse sem palavras que Deus não tá morto que existe a eternidade e que a divindade está em tudo Cantaria com três vozes em uníssono: Salve homem,céu e terra santíssima Trindade Sagrada pirâmide do Egito: diz-me com cuidado a resposta ao enigma dai-me com calma o segredo que já sei,mas tenho esquecido. Sopra aqui na minha nuca um susussurro,um vento quente a acalmar dúvidas e clarear caminhos (que só existe ao caminhar). Te dou em troca passos firmes mas leves Leve,leve como a promessa de luz no eclipse Leve,leve como uma manhã de frio e sol. Põe aqui na palma das minhas mãos negras O Segredo e revela-o como quem abre as cortinas em manhã de calor e sol Oh,que o sol,o calor e a manhã aqueçam a alma como fogueira de Airá E como fogueira e sol,manhã e calor Serei inteira – como a lua cheia que se escondeu no eclipse. Amém. (a Cesária,algum dia de novembro,2004 —e porque ela era rainha,mesmo contra a minha ética a foto se fez necessária…) By Patrícia Magalhães,on October 3rd,2011 When words fail,screams prevail. As such,that Being spoke in tongues and tones and such in the hour of shattered hues and colorblinds that Being,colorful,shouted stories once told in and around fire. That Being said of crackles of and among stars of female dragons swallowing flames,spitting womb bloody water of certitudes shaken,breakin’. It spoke of a time of yes and a time of maybe,and a time when Time was not. It then resumed,and silenced. In and around fire,stories have been told and burnt. In hours of shattered beings,colorful or colorless,we’ve chanted —in and about fire we’ve held hands,cursed and plagued we’ve calmed down —all in spite of fire we’ve searched words,spoke nonsense reached further,found new hearts,new ears,new tongues,new tones and still played the same song…so did Fire. One day Fire rose and played those same tricks already played in other crossroads: it painted one side red,and the other darkness and went about his way,tricking and treating. Tricking and treating Fire goes on,and on,and on:one side,red. The other,darkness. (originally published at http://www.madmenscalling.com/) By Patrícia Magalhães,on October 3rd,2011 one of those nights one of those haunted sights one of those. senseless plight. one of those spite. full. nights. (originally posted at http://www.madmenscalling.com/) By Patrícia Magalhães,on October 3rd,2011 Bruna é aquele ser ainda em formação,ou assim a pensamos. 5 anos,“apenas”…mas vocês bem sabem que esses seres ainda em formação já sentem tanto ou mais do que a gente pseudo-formada. Eles só não dizem como dizemos,e por isso acabam dizendo melhor. Crianças são originalmente poetas,mas depois aprendem regras de concordância. Bruna,quando sente dor na alma,acha que vem das pernas. Ou da barriga. A dor de ver Pinóquio e Gepeto se afastarem é sentida com lágrimas que ela não sabe de onde vêm. Aí ela acha que é a perna que dói,e chama o pai. O pai foi quem também a ouviu dizer,em tom shakespereano e lacrimoso,que “essa é a pior vida que existe”. A pior vida que existe a que essa coisinha de 5 anos se referia era a espera de algumas horas por uma prima que nunca chegou para brincar com ela. A pior vida que existe é a da espera do que não se concretizou? A da solidão? A das falsas promessas? A da impossibilidade da brincadeira? Ou é apenas a de não saber dizer que está com sono? Bruna não sabe,e eu tampouco. E por não saber,poetiza o que sente. Dramatiza as sensações. Poetas são crianças que apenas cresceram. Ou não. By Patrícia Magalhães,on April 28th,2011 
photo © Patrícia Magalhães ,2011 Eu sou da Bahia. Aquele lugar onde supostamente o tempo passa mais devagar,as pessoas falam cantando,as cores têm mais contraste. Onde se é católico-apostólico-baiano-protestante-do-axé-do-dendê-ateu-espírita-etc,tudo junto,sem que haja absolutamente nenhuma contradição. Onde o vizinho entra sem bater,o amigo já está deitado no sofá,e o caruru que era de sete meninos alimenta uma creche inteira. A terra do mais belo dos belos,Ilê Ayê. Da moqueca,dos quitutes todos do tabuleiro,do bolinho de estudante que também é punhetinha,da Casa Branca cheia de pretos. Do pôr do sol do Porto que é o retrato da beleza,e que merece palmas. Terra dum metrô que virou lenda e que em breve é capaz de virar arquétipo descrito por Pierre Verger. Terra de muita coisa errada,mas muita gente boa. Pois bem,eu sou dessa terra,e todo verão é pra lá que volto,andorinha que sou. Desde 2005,entretanto,vivo nos Estados Unidos da América (e não,eles nem são tão unidos assim). Passei grande parte dos quatro primeiros meses em Nova Iorque,onde o tempo passa muito rápido. Onde os táxis não param exatamente quando e onde você precisa,e o motorista russo acha que sou da Etiópia e quando descobre que sou brasileira pergunta,num português perfeito,o que significa “cada macaco no seu galho”. Nova Iorque,onde as pessoas podem ser extremamente frias,mas ser frio é cool. Onde há parques que são praias,e museus que são igrejas —reza a lenda que há 365 museus em Nova Iorque,um para cada…mentira,essa lenda é de origem baiana mesmo. Nova Iorque tem tudo do bom e do melhor do mundo,parece;e deve ter o de pior também. Tem o mundo todo em si. É atemporal,quiçá anacrônica. Fala todas as línguas e não fica em silêncio nunca. Mas minha vida nos EUA é na verdade na Pensilvânia. Não,aqui não há vampiros,você está confundindo com a Transilvânia. Aqui o tempo às vezes parece que não existe,às vezes sufoca,às vezes liberta. Aqui moram meus peixes,no quintal. Aqui tenho um jardim e às vezes uma horta,e meus vizinhos gays se chamam de roomates e cuidam da minha horta quando viajo;e minha vizinha grega idosa e que cai no quintal me acha so pretty. Aqui há sempre barulho de ambulância por causa do hospital na esquina de casa —foi lá que acompanhei minha vizinha grega uma tarde inteira,depois de uma queda;ela nunca mais foi a mesma desde então,acho que está a caminho do seu próprio outono,que aqui é fall. E por falar em estações,aqui a primavera é realmente de tirar o fôlego. A primavera na Pensilvânia foi provavelmente uma das mais belas experiências que tive quando me mudei para a “América”. Sendo da Bahia,nunca tinha realmente experimentado as estações,e minha transição para estas terras do norte foi justamente na transição entre o inverno e a primavera —não vou nem entrar nas possíveis interpretações lacanianas disso tudo,me deixem! Num fim de semana,o quintal era pura neve e morte:galhos secos,folha nenhuma. No outro,neve já quase toda derretida,a vida começando a se anunciar,vida verdinha e pequena que vinha devagarzinho por debaixo das catacumbas das folhas do outono molhadas de inverno,que agora serviam apenas como adubo para a vida que estava por vir. É sempre assim:uma coisa sempre morre para outra crescer. Viva a primavera. Que morra o que já passou do tempo,e que venha o que há tanto tempo tem raiz mas fica com receio dos frutos por puro medo do outono. | A sample text widgetEtiam pulvinar consectetur dolor sed malesuada. Ut convallis euismod dolor nec pretium. Nunc ut tristique massa. Nam sodales mi vitae dolor ullamcorper et vulputate enim accumsan. Morbi orci magna,tincidunt vitae molestie nec,molestie at mi. Nulla nulla lorem,suscipit in posuere in,interdum non magna. | |